.:Atletas do MTB encaram aventura nos arredores da capital

A trilha do Alto do Delírio, a 25km do centro de Brasília, não tem esse nome à toa. O percurso de 80km testa corpo e mente desde as primeiras pedaladas
Persistência é requisito mínimo para os ciclistas de mountain bike dispostos a pedalar no Alto do Delírio, trilha localizada próxima à Fercal, região a 25km do centro de Brasília. Mas como o próprio nome entrega, superar o percurso de 80km pode mexer com a saúde mental dos aventureiros.

E não é exagero: o apelido nasceu de uma experiência real. "Estávamos pedalando e meu companheiro ficou alterado, sem falar coisa com coisa", conta, rindo, Abraão Azevedo, uma das maiores referências do mountain bike candango e descobridor da região como ponto de treinamento. "Aí eu disse: 'Você está delirando, este lugar te levou ao delírio', e pegou".

A aventura começa antes mesmo do início do Delírio. Uma trilha formada por cascalho e pedras soltas e escorregadias tem de ser percorrida por pelo menos 15 minutos até o local de “largada”. É apenas o aquecimento — fundamental para aguentar o que ainda está por vir. As primeiras pedaladas do percurso não dão trégua. De cara é preciso vencer uma subida íngreme com 11 quilômetros de extensão.


Depois do trecho inicial, um terreno plano e até algumas descidas possibilitam um pouco de descanso aos aventureiros. Mas, nem por isso, tornam o passeio mais fácil. "O terreno tem a estrutura toda formada por pedras, é difícil manter o equilíbrio. São poucas as pessoas finalizam o percurso sem cair", alerta o ciclista Giovane de Carvalho.

Ele mesmo já perdeu as contas dos tombos que levou. "Mas isso é só um detalhe", garante Giovane, que colecionou arranhões e pequenos machucados.

O Delírio possibilita diferentes tipos de treinamentos. Enquanto algumas pessoas reservam o dia para concluir os 80km — tarefa que pode levar de 3 a 6 horas, dependendo do condicionamento físico —, outras aproveitam apenas parte do trecho para realizar uma preparação específica. "Costumamos repetir seis minutos de subida no trecho mais duro seis vezes, com a frequência alta. Além de gastarmos menos tempo, investimos em um trabalho direcionado", explica José Ribeiro, 39 anos, mais conhecido como Mutamba.

Desafio para poucos
Tido como uma das trilhas mais duras do Distrito Federal, o Delírio exige um preparo especial antes de os ciclistas o encararem. Além do desafio técnico e físico, não há possibilidade de voltar atrás ou de pedir ajuda após o início do percurso.

"A volta é tão difícil quanto a ida. O lema é: se começou, termina. Nem que isso signifique colocar a bicicleta nas costas e carregá-la", observa o ciclista Sandro Lourenço, 35 anos.

O local está cercado por plantas do cerrado e animais típicos da região, como cobras e lobos-guará. Com a paisagem que em nada se assemelha ao desenho urbano, era de se esperar que carros não chegassem lá — muito menos sinal de celular. Por isso, deve-se ter maior prudência para evitar tombos mais sérios, já que o socorro dos Bombeiros só é possível via helicóptero, e redobrar a atenção no caminho.

Histórias de atletas que se perderam e dormiram no meio do mato são repetidamente contadas pelos frequentadores.

Não sai da memória O ciclista William Caetano, 37 anos, frequenta o Delírio há mais de 15 anos. Mas a sua primeira experiência nesta trilha continua bem viva. “Vim com uns colegas e pedalava só há alguns meses. Foi realmente muito sofrido, a todo momento pensava que não daria conta”, lembra. “É uma semaninha de dores pelo corpo, mas compensa.”

O que a gente viu
As garrafinhas d’água dos ciclistas ficam empoeiradas logo nas primeiras pedaladas no Alto do Delírio. Por isso, eles preferem utilizar modelos em que basta pressionar para o líquido sair ou recorrer ao camel back. Nada que resolva totalmente o problema. “Quem vem para cá pode saber que vai comer poeira, não tem jeito”, avisa o ciclista William Caetano.

Como chegar
O Alto do Delírio fica a 11km da entrada da Fercal. O motorista deve passar pela fábrica de cimentos Ciplan e rodar pela DF-205 por cerca de 5km. O acesso fica à esquerda, após a entrada do Córrego do Ouro. Preste bastante atenção, porque é fácil perder a entrada para a trilha, que não tem nenhuma sinalização.

correiobraziliense.com.br

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