.:Pedal, só sob escolta


Os assaltos a ciclistas na capital se tornaram tão frequentes que a própria polícia passou a acompanhar grupos de praticantes. Algumas trilhas foram abandonadas por medo de bandidos


Viatura da PM monitora o exercício noturno de 40 ciclistas do Guará. Perigo maior é nas subidas

Por Gizella Rodrigues
Da equipe do Correio


Um grupo de 40 ciclistas do Guará faz passeios de bicicleta toda quinta à noite. Eles saem por volta das 20h30 da QE 34 e pedalam até o Lago Sul. Demoram duas horas e meia para percorrer os 60 quilômetros. Na última quinta, eles pediram apoio da Polícia Militar. Um carro com três policiais fardados os acompanhou até o início do Setor de Clubes Sul. A escolta foi solicitada porque os ciclistas tinham medo. Não da violência do trânsito do DF, que matou 50 pessoas que andavam de bicicleta entre janeiro e novembro de 2008. A preocupação era com possíveis assaltos. Na última vez em que tinham ido pedalar, dois homens do grupo haviam sido roubados e perderam as bicicletas, avaliadas em R$ 3,5 mil e R$ 5 mil.

O caso do Guará não é isolado. Relatos de ciclistas assaltados enquanto pedalam são diários. Muitos afirmam que o medo de ser roubado é maior que o de ser atropelado. A Secretaria de Segurança Pública não tem estatísticas detalhadas sobre o tema, mas não se fala em outra coisa nas listas de discussão mantidas por ciclistas na internet. Em uma delas, do Pedal Noturno, são 44 tópicos listados entre agosto de 2006 e 20 de janeiro deste ano. Quem é vítima se identifica como “mais um nas estatísticas”. Quem nunca foi roubado se define como “exceção”.

O caso do Guará não é isolado. Relatos de ciclistas assaltados enquanto pedalam são diários. Muitos afirmam que o medo de ser roubado é maior que o de ser atropelado. A Secretaria de Segurança Pública não tem estatísticas detalhadas sobre o tema, mas não se fala em outra coisa nas listas de discussão mantidas por ciclistas na internet. Em uma delas, do Pedal Noturno, são 44 tópicos listados entre agosto de 2006 e 20 de janeiro deste ano. Quem é vítima se identifica como “mais um nas estatísticas”. Quem nunca foi roubado se define como “exceção”.

O Cadastro Nacional de Bicicletas Roubadas, feito pelo site www.pedal.com.br, registra roubos em todo o Brasil. Por enquanto, há apenas um de 2009, em Ribeirão Preto (SP), feito em 6 de janeiro. Mas Brasília aparece frequentemente na lista. Dos 60 registros de 2008, 30% são do DF (18 casos). O Plano Piloto lidera as ocorrências com sete casos. Em seguida, aparecem Cruzeiro (4), Ceilândia (3), Guará e Taguatinga (2 cada). Desde 2001, apareceram no cadastro 48 episódios no DF. Os números reais são maiores porque pouca gente conhece o site.

“Eles levam bicicletas, sapatilha, GPS, celular, capacete”, lista Kátia Luciene Rodrigues, coordenadora do Pedal Noturno. A maioria dos roubos ocorre da mesma forma. Armados, os bandidos levam as bicicletas mediante ameaça. Os ciclistas se tornam presas fáceis nas subidas, quando estão devagar. Um dos pontos mais perigosos é a subida do Colorado (veja arte).

Bens valiosos

O alvo preferido dos assaltantes são as bicicletas importadas, usadas por profissionais. As mais visadas são das marcas Specialized, Cannondale e Trek. O alto valor delas, que chega a R$ 20 mil, é o principal atrativo. Até por isso, alguns ciclistas mais experientes camuflam as bicicletas ocultando a marca com fita isolante, contact preto ou adesivos.

No Guará, os bandidos levaram as bicicletas de Francisco Pereira de Sousa, 35 anos, e Rimak Souto, 35. Os dois estavam com o grupo, mas o pneu de Rimak furou na QE 34. Francisco ficou para ajudar. Pouco depois, dois homens, um deles armado, os abordaram. “Eu não queria entregar, mas o cara deu um tiro para cima e ameaçou me matar”, relata Francisco.

Segundo o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo Guará, coronel Jhair Lobo Rodrigues, o grupo continuará sendo acompanhado pela PM. “Vamos dar apoio principalmente pela passagem em um trecho mais sensível, que é mal iluminado”, diz. Apesar disso, o coronel afirma que o roubo de bicicletas não é um crime com altos índices. “O roubo a comércio é muito maior. Infelizmente, temos que trabalhar em cima das prioridades.”

Trilhas perigosas

O medo de ser assaltado não é restrito ao asfalto. Grupos de mountain bike também estão assustados. Três regiões são eleitas como perigosas: a Floresta Nacional (Flona), entre Taguatinga e Ceilândia, as trilhas da Fercal e os caminhos pelo Altiplano Leste, no Lago Sul. Duas trilhas foram excluídas da rota habitual por causa dos constantes roubos. A trilha Córrego do Ouro, na Fercal, e a Unipaz, no Riacho Fundo, são territórios “proibidos”.

Eduardo Bürgel, um dos coordenadores do Rebas do Cerrado, grupo que reúne 1,9 mil ciclistas do DF, conta que as quatro trilhas da Fercal chegaram a ser suspensas por causa dos assaltos. Três acabaram resgatadas, mas a do Córrego do Ouro segue vetada. “Ela é perigosa porque tem bifurcações. Houve uma vez em que roubaram quatro bicicletas”, conta.

Localização impossível

Os ciclistas acreditam que muitos furtos e roubos são “sob encomenda”. Os receptadores desmontam as peças e as vendem separadamente, o que torna a localização quase impossível. “A pessoa rouba a bicicleta porque sabe que tem alguém que vai comprar”, diz o presidente da Rodas da Paz, Maurício Gonçalves. “Por isso a gente pede para as pessoas não comprarem bicicletas sem nota fiscal”, completa a coordenadora do Pedal Noturno, Kátia Rodrigues.

A polícia não acredita em esquema profissional. A Delegacia de Repressão a Roubos (DRR) não tem qualquer investigação em curso. “As ocorrências são apuradas pelas delegacias de cada área. Existem casos isolados, mas não uma onda de roubos”, considera o delegado-chefe da unidade especializada, Wadson Warmling. Ele aconselha que as pessoas roubadas procurem a polícia imediatamente, pois, dessa forma, os ladrões podem ser identificados em flagrante.

A principal dica de segurança para os passeios é nunca pedalar sozinho. Bürgel recomenda que as pessoas se reúnam em grupos entre seis e 10 pessoas, no mínimo. A regra é: se um ficar para trás, todos devem esperar. “A gente sempre pedala com muita gente. São entre 70 e 150 pessoas. Sempre tem alguém com ritmo mais lento. A gente chama esse grupo de cozinha e sempre tem um grupo de veteranos que ficam no final acompanhando os iniciantes”, explica. O Pedal Noturno tem até “batedores”: um dos integrantes do grupo acompanha os passeios semanais de carro ou motocicleta para não deixar ninguém para trás.

Além dos assaltos, furtos também são comuns. Nas listas de discussão, os ciclistas contam casos de bicicletas que desapareceram dentro de casa, em bicicletários de blocos, de órgãos públicos e na Universidade de Brasília. Ano passado, ocorreu um caso no Parque da Cidade. A ciclista parou para beber uma água de coco, deixou a bicicleta num canto e, quando se virou, ela havia desaparecido.

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