.:Em uma só bicicleta aventureiros partem rumo ao Rio de Janeiro

Uma viagem em busca de sensações nunca antes vividas. E sentidas. Eles não sabem bem o que viverão ao longo desta aventura. Mas sabem que partirão. E vencerão 1,7mil km, debaixo de sol e chuva. Vencerão o cansaço, o desconhecido, o imprevisível. O imponderável. E tentarão chegar, depois de 18 dias, ao ponto final, a bordo de uma bicicleta que leva duas pessoas. O ciclista da frente contará para o que pedala atrás o que vê. Falará da paisagem, dos declives, das montanhas, da vegetação. O que vem atrás lhe dirá sobre sentimentos muito particulares. Um vento que sentiu no rosto. Uma brisa. Um cheiro. E o silêncio no meio do nada, em todos os momentos, será o grande aliado dos dois. O resto será apenas emoção.


O que conduzirá a bicicleta na frente será os olhos do que virá atrás. Um enxerga. O outro, em decorrência de uma retinose pigmentar — alteração hereditária, na qual a retina degenera de forma lenta e progressiva, conduzindo finalmente à cegueira —, quase nada, ou nada, enxerga. Eles mal se conhecem. Um sabe muito pouco sobre o outro. Um sabe apenas a voz do outro. Tiveram apenas dois encontros. Nessa viagem, irão virar apenas um. E vão, finalmente, se conhecer. “Combinamos assim: pouco contato antes da partida. Vamos deixar para saber mais um do outro nos dias em que estivermos juntos”, revela o ciclista que será os olhos do homem que não enxerga.
De Brasília à Paraty (RJ) de bicleta: Confira os preparativos dessa aventura

O homem que enxerga se chama Weimar Pettengill, nasceu em Mato Grosso do Sul, mudou-se para Brasília ainda menino, mora no Park Way, tem 37 anos, 1,80m, 75kg, empresário, casado, dois filhos. O outro, que será conduzido, é Adauto Xavier da Trindade Belli, brasiliense, também de 37 anos, 1,75m, 66kg, mora na zona rural do Tororó, é adestrador de cães, solteiro, sem filhos. Em comum, apenas a paixão destemida pelos esportes de aventura.

Um dia, Weimar pensou em fazer absolutamente sozinho uma grande viagem de bicicleta. Daquelas que o marcasse para sempre. Que pudesse contar aos filhos. Pensou na Estrada Real, caminho percorrido pela riqueza da Coroa Portuguesa no Brasil Colônia e também no Brasil Império, que parte das Minas Gerais, mais precisamente de Diamantina, ao litoral do Rio de Janeiro. Percorreria 900km. Mas, logo em seguida, quis mais. Por que não sair de Brasília, chegando a Unaí (MG) e dali seguindo em estrada de terra até Diamantina? Ele gostou da ideia. Contou aos amigos. Uns disseram, categoricamente: “Isso é uma loucura, Weimar ”. Desaconselharam-no. Outros ficaram extasiados. E houve quem lhe confessasse: “É a viagem da minha vida”.

Weimar decidiu que partiria, então. Soube que dos 1,7mil km, apenas 20% são de asfalto. O resto é chão, morro, subidas íngremes, deserto, Serra do Espinhaço e sua subida de 28km. E, nesta época do ano chuvosa, rastro de muita lama. Mas, como um chamado, alguma coisa mudou na sua cabeça. E vieram as indagações: “Será muito egoísmo fazer essa viagem sozinho. Por que não dividir essa experiência com alguém?” Os planos iniciais foram alterados. Ele decidiu que convidaria uma pessoa para a mesma aventura. No grupo ciclístico Rebas, projeto que leva deficientes visuais para passeios de bicicleta e promove inserção social de cegos, ele soube de um certo Adauto, que já pedalava havia um ano e adorava experiências radicais.

“Eu topo”
O empresário ligou para o adestrador de cães. Falou do seu sonho. Do outro lado da linha, Adauto não hesitou. E lhe disse, sem meias-palavras: “Eu topo”. E pensou, sozinho: “Quem me chamaria de novo para uma viagem dessa? É minha chance”. Weimar comprou uma bicicleta Tandem, que leva duas pessoas. Modificou-a para a viagem. Trocou rodas, suspensão, colocou freios a disco. E, finalmente, marcou um encontro com Adauto. Conversaram. Andaram na bicicleta que “parece uma van”, como define Weimar. Pedalaram por Brasília. Treinaram. E o homem que sonhou em desafiar limites disse ao homem que não enxerga: “Vamos contar isso pro mundo”. Adauto topou mais uma vez.

No próximo dia 29, às 7h, os dois partirão. A largada será na Catedral de Brasília. Na bagagem, apenas o essencial: uma muda de roupa, dois uniformes de ciclismo e água apenas para o dia. Nada de barraca. “Isso tornaria a viagem mais pesada. Vamos pedalar todos os dias, até chegar a uma cidade, um povoado, uma vila, e ali dormiremos. Lá, também vamos comer e tomar banho”, explica o idealizador da viagem. Banheiro? Mato pra que te quero...

A aventura requer uma meta a ser cumprida. A ideia é pedalar de seis a 10 horas por dia, vencendo, em média de 120 a 160km. “Queremos entrar em Paraty (RJ) antes do carnaval”, prevê Weimar. A viagem também vai virar um livro. Por enquanto, se chamará Brasília Paraty, somando pernas para dividir impressões. Essas impressões estarão impregnadas em todos os sentidos dos dois ciclistas. E possivelmente depois delas não serão mais os mesmos.

Se um patrocínio de uma grande empresa se confirmar, da viagem também sairá um documentário. Weimar fez um projeto em que uma equipe filmará todo o percurso, mas sem interferir em nada, sem intromissão, sem ajuda em qualquer hipótese. Muito menos carona. Nada do que pensou será alterado. A ideia do documentário é falar sobre inclusão social, acessiblidade, mobilidade, saúde e qualidade de vida.

Discutir a relação
O Correio acompanhou o segundo encontro dos dois ciclistas, num treinamento na região do Lago Sul, próxima à Ponte JK. Adauto, bem-humorado, não perde a piada. “Formaremos uma dupla sertaneja”. O nome? “Vai & Que vou”. E brinca: “O patrocinador dessa viagem será a Funerária Boa Viagem”. Weimar gargalha. E confessa o que mais o fascinou no companheiro de aventura ainda desconhecido: “Ele tem um humor invejável. É uma dádiva que tem que cultivar”. Adauto revida: “E ele conta piadas como ninguém”. E admite, comovido: “Ele será os meus olhos na viagem”. Weimar ouve, disfarça a emoção e segue pedalando.

Em algum momento do treino, na subida da Ponte JK, Weimar lembra que a Serra do Espinhaço, que corta o estado de Minas Gerais no sentido norte-sul, será uma das partes mais difíceis da viagem. Adauto, mais uma vez, sapeca seu bom humor: “Você vai subir com quem mesmo?”. Weimar responde: “Com um maluco que topou ir comigo...” Os dois riem. O homem que não enxerga admite que não sabe ao certo o que acontecerá na aventura sobre duas rodas: “Não sei o que vou encontrar. Só sei que será uma grande terapia, um divã”. E continua: “No fim, vamos sentar e discutir a relação”. Weimar já sabe exatamente o que os dois farão quando chegarem a Paraty: “Vamos nos jogar no mar, mortos”.

Mais do que uma grande aventura, o empresário e o adestrador de cães que mal se conhecem vão em busca de uma outra viagem. Talvez a melhor delas: a viagem ao interior deles próprios. Uma experiência única e intransferível. Um será os olhos do outro. E o outro contará ao que enxerga sensações que muito provavelmente ele nunca veria, mesmo com os olhos abertos. Será uma viagem pra nunca mais esquecer. Disso, eles têm certeza. Aliás, é a única certeza dessa aventura.


CURIOSIDADE
Quer saber mais sobre a viagem? Dê uma espiadinha no site www.desbrava.com

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